Existe limite para a incoerência?

Mediocridade. Se existe algo mais irritante do que isso, me contem. Agora com essa história do diploma de Jornalismo não ser mais necessário para obtenção do registro profissional, os medíocres brotam por todos os cantos do país. Não, eu não queria escrever sobre este assunto, juro. Muito já foi escrito, dito, gritado. Mas foi inevitável comentar a respeito do que aconteceu há pouco comigo. Seja qual for a minha opinião ou a de outrém, do que eu não abro mão é do respeito.

Recebi um spam. Um rapaz divulgando seu blog, sobre o Internacional. Eu não o conheço, nem sei como ele tinha meu endereço de e-mail. O fato é que ele escrevia assim:

Amigos

estou me aventurando pelos caminhos do jornalismo
me aventuro na entrelinhas da bola desde Dezembro passado escrevendo diariamente sobre o Sport Club Internacional, mas enganan-se aqueles que pensam que escrevo um conteúdo extremamente radical e fanático, não. escrevo baseado em notícias e informações coletadas ao longo do dia nos mais diversos veículos de comunicação. dêem sua opinião sobre a qualidade do material publicado
a opinião de todos será avaliada com muito carinho
aguardo o acesso de todos

“A opinião de todos será avaliada com carinho”. Pois bem, respondi. Perguntei se a pessoa em questão é jornalista ou se pegaria carona na decisão do STF. Perguntei mesmo. Ele respondeu com alguns argumentos, dizendo que já escrevia há tempos, que tinha matérias publicadas em veículos de imprensa. Como é sabido, até pouco tempo atrás, só assinavam matérias jornalistas com registro profissional e, portanto, diplomados. Citei esse detalhe ao rapaz. Fui direta mas respeitosa, como quem me conhece sabe que sou. A resposta? Por respeito aos meus leitores, não a copiarei aqui. Mas digo a vocês que continha dois xingamentos. Daqueles.

Depois disso, apenas respondi que ele é muito educado e o parabenizei (a ironia é a melhor luva para estapear alguém). Ele, um pouco arrependido, enviou novo e-mail pedindo desculpas (!!), dizendo-se impaciente com a pressa de julgamento que as pessoas fazem. Também me enviou o texto do excelentíssimo ministro que argumentou contra o diploma. Como se eu já não conhecesse os argumentos do STF… enfim, segue a minha resposta abaixo:

Meu caro, a questão não é julgamento. Em nenhum momento eu te julguei. Eu te fiz perguntas.
Se você não sabe discutir e não está pronto para questionamentos, reveja suas escolhas. Principalmente a escolha que fez de divulgar o seu blog.
E eu não aceito desculpas de quem se refere a mim como vc se referiu, de forma ofensiva gratuitamente, sem me conhecer e aí sim, fazendo julgamentos. Eu sou jornalista, mas acima de tudo sou uma pessoa educada e que sabe discutir com maturidade.

Mas, vou te responder:

Faculdade não é questão de garantia de emprego. Não devemos buscar qualificação para garantir emprego mas sim para garantir que a informação que passamos às pessoas é digna de confiabilidade. Quando falo em qualificação, falo em qualidade de informação. E eu busquei me qualificar pensando nisso. Faculdades são caras? Sim, sei bem disso. Por isso levei 7 anos para me formar, fiz crédito educativo, mas cheguei ao final. Quando queremos, conseguimos.

Eu conheço todos os argumentos do STF. E acho que estão equivocados. Redondamente equivocados. Jornalismo NÃO é arte, NÃO é liberdade de expressão. Fazer jornalismo não tem a ver com liberdade de expressão, tem a ver com apurar os fatos de forma correta. Tem a ver com técnicas para se fazer isso da melhor forma possível. Todo mundo pode se expressar e para isso existem os espaços específicos na imprensa. Jornalismo NÃO é manifesto do pensamento. Jornalismo é um serviço para a sociedade e deve ser utilizado por quem está preparado para tal. Não confunda, já que o STF já confundiu, jornalismo com liberdade de imprensa. Liberdade de imprensa se refere à liberdade que os veículos de imprensa devem ter para apurar os fatos que ocorrem na sociedade. E esse termo existe pq historicamente sabemos que nem sempre essa liberdade existiu. Do mesmo modo, liberdade de expressão não pode significar que pessoas despreparadas queiram trabalhar como jornalistas. Se for assim, vamos discutir a necessidade de diploma para atuar com psicologia, com tantas outras profissões… Aliás, o caminho até a discussão a respeito de outras profissões está mais curto do que muita gente pensa. Mas, como todo mundo confunde jornalismo com “gostar de escrever e ler”, então esse episódio lamentável da não obrigatoriedade do diploma em Jornalismo passa batido e nós, jornalistas, ficamos taxados como “sensacionalistas, dramáticos” e outras coisas do tipo.

Respeito outras opiniões – inclusive as suas – quando fundamentadas, mas essa é a minha.

Adeus e um abraço.

Dito isso, despeço-me. Não tenho a necessidade de dizer quem ocasionou esta discussão. Não aqui no blog pelo menos. Mas quem quiser conhecer o blog dessa pessoa, pode me pedir o endereço.

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9 pensamentos sobre “Existe limite para a incoerência?

  1. Jac…

    Conheço esta situação…
    Infelizmente, nós, professores, também nos deparamos com alguns “colegas” sem a devida capacitação… Engenheiros lecionando Matemática e Física, com bom domínio de conteúdo, mas com uma didática que induz a (de)formação do indivíduo…
    Em um país onde a educação é vista como negócio, e que formar cidadãos não é a finalidade primordial, não é de estranhar que daqui a pouco os cursos tecnicistas via web (o que já não é nenhuma novidade) passem a tomar lugar dos professores.
    Expressar a opinião todo mundo pode, certamente! Mas é muito importante lembrar do papel exercido pela mídia nos tempos em que vivemos, e que esse, além de necessário, deve ser constantemente revisto, assim como a prática educativa.
    Em uma sala de aula, utilizamos muito a informação como método de ensino, e acredito que, com a educação que nossos alunos recebem hoje (tanto em casa como nas nossas escolas), esta questão deveria ser melhor trabalhada.
    Acredito que ninguém tenha pensado nisto…

  2. Sobre esse assunto – do diploma e tals – tenho opiniões desconexas. Porque se de um lado acho o diploma super importante, relacionado principalmente com as questões de ordem ética, de outro penso na tal liberdade de expressão que falam tanto por aí. Além disso infelizmente o diploma não é garantia de que o cara não vá fazer merd@. Enfim, tenho opiniões contraditórias mesmo, que nem mesmo eu entendo. :p

    Mas sobre o teu post. Cara, que coisa a má educação das pessoas. Tenho notado que é um corportamento recorrente nas pessoas do mundo virtual. Elas querem dar opinião sobre tudo, mas não querem ser questionadas ou muito menos receber uma opinião contrária. Para mim isso não passa de má educação. E de EGOS GIGANTES.

    beiju

  3. Também não concordei com essa decisão do STF… Na medida em que busca se incentivar a educação no país, mostrar o quão importante é investir em edução para apoiar o desenvolvimento do Brasil e da sociedade, vem uma decisão dessas que a grosso modo está nos dizendo “estudar 4 ou 5 anos em uma faculdade pra que se qualquer um poderá exercer a profissão”…
    Claro que diploma não é garantia de um profissional excelente e existem ótimos profissionais em muitas áreas que não possuem diplomação, mas é um tiro no pé de quem quer investir na educação…

    Lamentável realmente….

  4. Concordo em gênero número e grau. Afinal, como discordar de tantos e tamanhos argumentos? Infelizmente este é o nosso País, e nem sempre as decisões da Corte Suprema refletem os anseios da sociedade brasileira.

    Grande abraço!

  5. Cara colega, não preciso nem dizer que achei um absurdo a decisão do STF, em prol da “liberdade de imprensa e da democracia” piada né?
    Mas sendo bem pessimista, acho que as consequencias disso virão daqui 10, 15 anos. Teremos uma sociedade pior, mediocre, mais incoerente do que já é…
    Bj

  6. Não acho. A sociedade não será pior por isso. Veja só: a retirada do diploma não representa o fim dos cursos de jornalismo, talvez eles se modifiquem para garantir que se forme um profissional que seja melhor que autoditadas do jornalismo e aí, sim, as faculdades farão a diferença.
    Com todo respeito, não pertencendo a área, não faço grande idéia de como apurar fatos … somente dar opiniões baseadas em leituras e outros meios….
    Dizem por aí que os próximos diplomas na mira são os dos administradores, e, quem sabe, dos advogados…
    Boa noite a todos.

  7. Jac! Quanto tempo! Realmente um assunto polêmico (será meu próximo post) mas acho que a discussão no congresso deveria ser outra. Deveríamos estar mais preocupados com a qualidade dos cursos do que com a obrigatoriedade do diploma, propiamente dito. E não falo só de jornalismo, não. Falo de tudo. Acho que não precisa ser jornalista formado para exercer a profissão, mas acredito em um curso – não necessariamente faculdade – que dê ao economista, ao ambientalista, ao especialisga em esporte, etc, ferramentas para transformar o conhecimento técnico em texto jornalístico. O diploma, na minha opinião, não precisa ser de curso superior. Por outro lado, se a faculdade de jornalismo tivesse mais conteúdo, mais literatura, mais política, mais tudo, de repente a discussão não seria necessária…
    Enfim, só par por mais lenha na fogueira…rs…
    bjs

  8. Concordo toralmente com seus argumentos na resposta dada ao tal indivíduo. Eu como estudante de jornalismo também discordo totalmente dessa decisão do STF, quem passou ou está passando pela faculdade sabe que precisa-se saber muita coisa antes de sair “fazendo jornalismo” por aí

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