Dialogando com Caco Barcellos

Ontem, 04 de novembro, estive no Salão de Atos da UFRGS no evento Diálogos Universitários, promovido pela Souza Cruz. São encontros que eles promovem em todo o país com universitários e demais interessados. Neste ano, Nelson Motta, William Waack e Nuno Cobra foram alguns dos palestrantes que já participaram. E o Caco Barcellos também. Inclusive aqui em Porto Alegre ontem, foi ele quem debateu e palestrou para a platéia sobre a cultura da violência. Há quem o ame, há quem o odeie. Não faço parte de nenhum dos grupos. Mas, antes de dar minha opinião sobre o que ouvi, quero tentar contar o que ouvi. Portanto, a partir das linhas abaixo, tudo o que for escrito é com base no que ouvi, sem que isso reflita minhas opiniões.

 

Caco

Caco sempre provoca polêmica

O Caco já tem mais de 30 anos de estrada no Jornalismo. Só por isso, merece algum respeito. É autor de dois livros bem conhecidos: Rota 66 e Abusado. Também é co-autor do livro Repórteres. Ele é bem conhecido por suas opiniões polêmicas a respeito da ação da polícia brasileira, principalmente no Rio de Janeiro, São Paulo e Espírito Santo – Estados alvos de suas pesquisas e investigações. Na palestra, Caco trouxe estatísticas que demonstram quantas mortes foram ocasionadas pelo Estado, pela polícia e por cidadãos “comuns”: aqueles que não tinham antecedentes. Exemplo: o marido que mata a mulher por ciúmes; o motorista que mata um motoqueiro em uma briga de trânsito; o Alexandre Nardoni que – supostamente – joga sua filha pela janela do apartamento, etc, etc. Curiosamente, no RJ em 2007, 78% das mortes foram provocadas por estes cidadãos. À polícia – ou seja, o Estado – foram atribuídas 20% e aos criminosos, 2%. Segundo ele, estes são dados da Anistia Internacional.  


O que Caco questiona na ação da polícia é justamente a sua forte repressão aos mais carentes que, mesmo que não sejam do crime, acabam muitas vezes sendo executados pela corporação. São as minorias que acabam sofrendo mais nessa rotina de justiça própria que a polícia estabelece, segundo estes dados e as pesquisas realizadas pelo jornalista nos últimos anos. E se, ao invés de pretos e favelados – fatia da população que mais aparece nas estatísticas embora não seja necessariamente a que mais comete crimes – a polícia começasse a torturar e matar pessoas da classe média? O nosso vizinho, nosso parente? Caco lançou estas perguntas… Relembrou o tempo da ditadura, quando eram os intelectuais, jornalistas e artistas que eram perseguidos e, muitas vezes, executados. O que ele quis dizer é que o mundo gira e que nunca se sabe quando seremos a bola da vez ou não. 

Além de dados numéricos que demonstram o que já sabemos – que o Brasil é um dos países mais violentos –, o jornalista mostra claramente sua indignação perante uma sociedade conformada com esses acontecimentos. Indignação esta que se estende à imprensa e aos colegas de profissão. Na opinião dele, a imprensa geralmente se conforma com as versões oficiais sem investigar a fundo o que ocorre. Na opinião dele, o conformismo generalizado colabora para a corrupção e a impunidade. Ele deu inúmeros exemplos sobre isso, mas não consigo contar tudo aqui com a merecida fidelidade.

 

Diversas vezes enquanto ele falava, eu me perguntava “o que concluir?” A verdade é que essa questão não é estanque. Concordo com algumas opiniões dele, com outras nem tanto. Acredito, por exemplo, que a polícia não deveria ter pensado na cobrança que os ongueiros fariam se o Lindenberg (que seqüestrou e matou Eloá) tivesse sido atingido ou assassinado. Nesse caso, minha opinião é de que a partir do momento em que ele oferece riscos para outras pessoas, ele deve ser contido de alguma forma. Seja com força bruta ou não. Não sou a favor da violência nem acho que ela possa ser combatida através de mais violência, mas nesse caso, todo o Brasil viu o que estava acontecendo. Talvez nesse ponto é que a imprensa tenha atrapalhado o trabalho da polícia. Mas também não sejamos ingênuos de culpar a mídia sem considerar que é isso o que a maioria dos telespectadores quer ver. Tudo faz parte de um ciclo e um agente não existe sem o outro. Aí vem um outro ponto questionado por Caco, com o qual eu concordo: alguns indivíduos da imprensa utilizam o espaço que têm para espetacularizar acontecimentos isolados e que não representam os crimes que acontecem todo dia embaixo do nosso nariz. Isso significa dizer que é mais interessante ficar um programa inteiro falando sobre um serial-killer do que sobre as centenas de pessoas que morrem executadas em favelas ou vilas só porque moram nesses locais. Não porque trocaram tiros com a polícia (embora eles divulguem que sim) ou porque cometeram um crime e resistiram à prisão. Morrem simplesmente porque estavam no caminho. Vira tudo farinha do mesmo saco.

 

Caco vai mais além. O que entendo dele e de suas opiniões é que ele é contra a pena de morte, mesmo para criminosos. Pra resumir, matar só se justificaria se fosse por legítima defesa. Sobre a pena de morte eu ainda tenho dúvidas. Só não tenho dúvidas em relação a sua implantação no Brasil. Definitivamente, o país não está preparado para este tipo de lei e nem seria a pena de morte a salvadora da nossa pátria. Antes, inúmeras outras coisas têm que mudar. Mas essa é só a minha opinião.

 

Os mesmos questionamentos que passeavam na minha cabeça, tenho certeza que também passeavam na mente dos outros que ouviam Caco falar. Sou contra a violência desmedida e a tortura. Sou a favor da justiça. E quando a gente pensa em justiça no Brasil, ai, dá até medo né… Geralmente ela só “funciona” com os pobres. Por outro lado, acho que os criminosos devem ser duramente punidos pelo que fazem. Não acho tão absurdo que uma pessoa que mata alguém, receba uma punição semelhante. Mas a questão levantada por Caco é: a violência desmedida da polícia contra qualquer um que preencha os requisitos de um perfil estabelecido por eles. A respeito disso, especificamente, compartilho da opinião dele.

 

Um dos exemplos que ele deu me marcou intensamente. Ele acompanhava a rotina de um hospital, em São Paulo ou Rio, não lembro agora, que fica cercado por favelas. Então é comum a chegada de feridos lá. E um hospital deve receber pessoas vivas né? Pois o jornalista presenciou um grupo de policiais deixar um corpo lá. Morto a tiros, o homem foi jogado no chão pois não havia maca. Quando Caco Barcellos perguntou ao médico plantonista porque eles aceitavam isso, ele disse “acha que vou me incomodar com a polícia?”. Frequentemente a gente vê na imprensa as notícias sobre tiroteios ou mortes de traficantes, assaltantes e afins que morreram a caminho do hospital (eu pelo menos, leio o jornal todo dia e sempre vejo isso). Muitas vezes, esse “a caminho” é o eufemismo que eles usam para a desova que Caco presenciou. Então, não é só uma questão de defender ou não bandidos. Pra mim, é uma questão de não compactuar com a bandidagem e impunidade dentro de um órgão que deve proteger o cidadão. Ou será que alguém acha que isso é certo? Matar por matar, simplesmente? Tenho minhas dúvidas. Sempre terei. Mas não sou radical. O radicalismo não é saudável, na minha modesta opinião.

 

O que gosto no Caco, agora falando da atividade jornalística e do exercer o jornalismo, é o modo como ele investiga e vai a fundo em tudo o que faz. Independente de concordar ou não com suas opiniões, é inquestionável o fato de que ele não se contenta em sentar a bunda na cadeira da redação e simplesmente aceitar a versão que o plantonista da delegacia informa pelo telefone ou que qualquer outra fonte oficial fornece. Ele não se destaca somente em pautas sobre violência policial. Reportagens de guerra (feitas sob a ótica de civis que morrem aos milhares, como em Angola), de comportamento religioso (como em uma das edições do Profissão Repórter) e até sobre temas bem amenos são construídas com profundidade, humanidade e investigação. Bem que seria bom se pudéssemos ter acesso a esse tipo de jornalismo todo dia né.

 

Por fim, ontem ao sair da palestra com uma amiga, fomos salvas por um PM. Éramos vítimas potenciais de indivíduos suspeitos que rondavam o carro da minha amiga na Redenção, parque famoso de Porto Alegre. Por sorte, eu ainda não havia ido embora com meu carro quando a Silvana me chamou de novo dizendo que dois caras estavam ao lado do carro dela. Sabemos que essa área é perigosa. Muitas pessoas são assaltadas ali. Disse a ela que entrasse no meu carro. Levei-a até bem perto de onde seu carro estava estacionado, mas ela preferiu não arriscar. Tive a idéia de dar uma volta para ver se eles saiam dali e disse que se encontrasse um PM pediria ajuda. Não havia policiamento lá. Mesmo sendo uma área universitária e várias pessoas serem obrigadas a transitar por ali naquela hora. Então a Sil lembrou que na outra ponta do parque existe um posto policial. Paramos lá, ela explicou a situação e o PM voltou conosco ao local para escoltar a minha amiga até o seu carro. Tudo acabou bem. Não soubemos se nosso medo tinha fundamento ou se foi fruto de um possível preconceito. Não soubemos, mas decidimos que aquele não era o melhor momento para descobrir.

 

Como eu disse antes, sem radicalismos. Embora a polícia não esteja tão presente nas ruas quanto deveria, ela nos foi útil na hora em que precisamos. Não fez mais do que sua obrigação, é claro. Mas é bom saber que, embora existam laranjas podres no cesto, sempre há aquelas que são saudáveis.

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3 pensamentos sobre “Dialogando com Caco Barcellos

  1. Bacana o post sobre a palestra do Caco Barcelos. Vc escreve muito claramente.

    Mas o que ele disse é uma surpresa para mim: 78% das mortes são causadas por, digamos, pessoas comuns, conforme dados da Aninstia Internacional, certo?

    Pensava que era muito menos: se os dados e a metodologia forem honestos muda-se, para mim, completamente a visão da dinâmica da violência no país.

    Particulamente nunca fui a favor de qualquer medida extrema contra violência e fico aliviado com tais dados levantados pelo Caco.

    Já violência explorada pela mídia só colhe de mim um protesto solitário: mal vejo tv ou leio certas partes dos jornais atualmente. Quando os vejo e percebo a exploração de um caso (Eloá e etc) fico meio revoltado e meu estômago se revira, xingo então aqueles programas vespertinos -os maiores abutres sobre a carniça – e troco de canal. E só.

    Quanto ao método da polícia de desova de cadáveres já é fato bem manjado da época da ditadura (ou mesmo antes) conforme o citado livro “Rota 66” que li algumas vezes, há anos. O “Abusado” cheguei a comprar mais uma amiga me disse que ao ler o livro se apaixonara pelo traficante Márcio VP, do livro. Aí desanimei, mas ele está lá na estante, outrora ainda leio.

    Acho que não devemos ter ranço da polícia, são profissionais quase como outros, e há assassinos fora dela também, até piores, penso. Mas a população é muito medrosa em geral, vive no medo e adora bodes expiatórios, só para usar de um clichê.

    Desculpe-me pelo comentário grande, mas estou sem sono e gostei do post, para variar.

    Abs. 🙂

  2. Então, sr. Patriarca, não me surpreendi com os dados que o Caco apresentou, quando parei pra dar uma segunda pensada nos crimes que ficamos sabendo. Só nos que ficamos sabendo. Imagina quantos crimes passionais, cometidos por gente que nunca matou antes, acontece sem que fiquemos sabendo?

    Sendo assim, 78% não é um absurdo. As pessoas hoje em dia se matam no trânsito, matam o vizinho, se matam por causa do futebol, de religião, de traição… enfim… pessoas “comuns”.

    Eu li Abusado e recomendo pra quem gosta de jornalismo bem feito e bem apurado. É uma obra. E não me apaixonei pelo Márcio VP 🙂

    Obrigada pelas visitas e volte sempre 🙂

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